Mitos e verdades sobre o vinho

Quanto mais velho, melhor

Vinho não tem prazo de validade? Quanto mais tempo guardar um vinho, melhor ele fica? Vinho velho é que é vinho bom? Não é bem assim… O vilão, no caso dos vinhos, nem é o tempo, mas o ar – o oxigénio, em contacto com certas substâncias do vinho, inicia uma série de reacções químicas que levam a sua oxidação. Então, tudo tem a ver com a combinação de oxigénio, corpo, tanino e acidez de um vinho. É preciso ser um vinho muito estruturado para aguentar mais do que cinco anos evoluindo e, na verdade, nem 30% dos vinhos que vemos no mercado melhoram com o tempo.

 

Rolha de cortiça é melhor do que screw cap

Enquanto os vinhos da Austrália são fechados com screw cap desde os anos 1970 e 80% dos vinhos da Nova Zelândia também, a maior parte do mundo ainda tem preconceitos com o lacre de alumínio. Mas sabia que apesar de não ser hermeticamente lacrado, o screw cap separa mais ar do vinho do que as rolhas convencionais, o que contribui para a preservação dos aromas e sabores do vinho (além de ser mais barato). Principalmente para os vinhos que são bebidos jovem, é o tipo de tampa mais indicado.

 

Cozinhar com vinho não deixa álcool na comida

Que o álcool é volátil, todos sabemos. Mas, quando misturado à água, a solução evapora em partes iguais. Se sobrou resíduo líquido, então é certo que há álcool na mistura. A quantidade depende do tipo de preparo e tempo de coacção. Só para se ter uma ideia, algo flambado mantém 70% do álcool, e um cozido pode conter até 80%! Mesmo as receitas mais longas, que ficam entre duas e quatro horas no forno, não têm menos do que 5% de álcool.

 

Uva branca faz vinho branco, uva vermelha faz vinho tinto

Nem sempre é possível fazer vinho branco com uvas tintas, basta fermentá-las sem a casca (pois é ela quem dá cor ao vinho). Por isso, existem raros Malbecs e Pinot Noirs brancos, assim como uvas brancas (Viognier, por exemplo) que vez ou outra entram em cortes tintos para agregar aromas, trazer acidez ou suavizar os taninos. Espumantes, principalmente Champanhes, são belos exemplos de vinhos brancos que levam uva tinta. Ah, mas vale lembrar que algumas uvas, como a Alicante Bouschet, são conhecidas por ter a polpa e o suco que produzem já tintos (por isso também são chamadas de uvas tintureiras).

 

Peixe só se come com vinho branco

Muitas pessoas vão sugerir que você nunca combine vinhos tintos com peixes, pois o tanino (presente na maioria dos tintos) e a carne de peixe, combinados, formam um gosto desagradável e meio metálico na boca. Isso é verdade, mas tanto o mundo dos vinhos quanto o mar de peixes são muito grandes para não haver combinações possíveis. Peixes mais untuosos e encorpados (como o bacalhau ou o salmão) podem harmonizar facilmente tintos de taninos leves, como os Pinot Noirs da Borgonha ou os Gamays de Beaujolais.

 

Se tem bolhas, é Champagne

Todo Champagne é um espumante, mas o inverso nem sempre é verdade. Champagne é uma denominação de origem com região demarcada e uvas regularizadas. Apenas os espumantes produzidos na província histórica de Champagne, lá na França, são de fato Champagnes.

 

Vinho doce leva açúcar

São vários os tipos de vinhos doces – fortificados, botritizados, de colheita tardia… Mas uma coisa é certa: nenhum deles leva adição de açúcar – a doçura que se sente no paladar vem da própria uva (é o açúcar residual, ou seja, que não foi transformado em álcool durante a fermentação). Sabe os vinhos suaves, esses simples que vemos nos mercados? Eles, sim, têm açúcar, e por isso acabam não entrando na categoria dos vinhos finos.

 

Vinho Verde é verde, e Vinho do Porto é feito no Porto

Nem uma coisa nem outra. Ambos os nomes se referem a denominações de origem. Vinho Verde fica em Portugal, às margens do Minho, e os vinhos produzidos lá recebem esse nome (seja tinto, branco ou rosé… Menos verde!); E o tão famoso Vinho do Porto, na verdade, é produzido no Douro. Ficou assim conhecido por ser o primeiro vinho de Portugal a ser exportado e, portanto, passava um bom tempo no Porto aguardando as embarcações.

 

Para fazer vinho rosé, mistura-se vinho tinto e branco

Até existem algumas empresas que fazem essa mistura para baratear os custos, mas o processo correto não é esse, pois acaba tirando propriedades do vinho e deixando um sabor bem desagradável. A regra geral é que o vinho rosé passe pelos mesmos processos de uma vinificação tradicional, mas a pele da uva (que dá cor à bebida) fica em contacto com o mosto (“suco” da uva) por menos tempo, deixando-o mais claro, mais rosa, rosé!

 

País quente não faz vinho

Dizem que uva precisa de frio para ficar boa, mas ela também precisa de sol para amadurecer. Aí, é fácil pensar na Europa e seus países frios, mas iluminados pelo sol. Realmente, são óptimos terroirs, mas o que faz bem mesmo para as vinhas é a amplitude térmica – dias quentes, noites frias, eis o ideal. Então, por que é possível fazer vinhos em lugares quentes, secos, desérticos como Washington (Estados Unidos), Barossa Valley (Austrália) ou Vale do São Francisco (Brasil)? São países que fazem muito calor no verão, e um frio mínimo necessário no inverno, mas o que mantém a produção mesmo são as terras áridas – com solo pobre em nutrientes, mas super fértil, só precisa de uma boa irrigação para dar bons vinhos (claro que muitas vinhas morrem no caminho, mas as que sobrevivem se potencializam).

 

A França é o país que mais faz vinho

Na verdade, a França, berço tradicional do vinho, não é nem o país que mais produz nem o que mais consome vinho. Ela fica em segundo lugar nos dois rankings, mas os campeões são outros. A Itália é a maior produtora do mundo, com mais de seis milhões de toneladas ao ano, duas mil a mais do que a França; Já os Estados Unidos são os maiores consumidores, quase 12% do consumo mundial de vinho (a França responde por 10,4%)!

 

Só o Brasil tem vinho de mesa

Acha que vinho de mesa, ou esses de garrafão feitos com uvas não viníferas (feitas para consumo “em mesa”, e não para a produção de vinhos), só existem no Brasil? Apesar de feitos com uvas finas, quase todos os países têm suas versões mais simples de vinhos – “vin de pays”, na França; “vino de la tierra”, na Espanha; “landwein”, na Alemanha; “regional”, em Portugal; “IGT”, na Itália; e por aí vai…

 

Acidez é o mesmo que azedo

A acidez, assim como o tanino e o álcool, tem grande importância no conjunto e estrutura de um vinho. Ela indica a vivacidade e o frescor de um vinho, e é muito comum encontrar vinhos brancos ácidos com notas de limão, mas acidez e azedume não têm muito a ver. A acidez de um vinho se nota pela saliva que se forma à boca – quanto mais te fazer salivar, mais ácido é. Como base, coisas azedas serão, na maioria das vezes, ácidas; mas coisas ácidas, muitas vezes, não são azedas.

 

Só tinto tem tanino

A maior parte dos taninos estão na casca das uvas, e como os vinhos brancos são fermentados sem a casca da uva (para continuarem brancos e por outros motivos mais), acabam não apresentando a sensação adstringente que um vinho tinto passa. Mas também existem taninos nas sementes e engaços, e até dentro da própria uva, então, tenha certeza: vinho branco também tanino, e existem rótulos que mostram isso bem fortemente.

 

Verdades

Vinho faz bem para a saúde

Vinho ajuda a circulação sanguínea, isso é fato. Vinho não engorda… Não tão fato assim. Tem gente que super valoriza, quase como se fosse um remédio, e até usa essa desculpa para beber cada vez mais. Na contra mão, há quem abomine, quase sempre se utilizando da desculpa de o vinho ter mais álcool do que qualquer cerveja. Que a verdade seja dita, vinho é uma bebida alcoólica, e como tal tem seus riscos. Mas também traz muitos benefícios à saúde (quando consumido da maneira e na quantidade correta), principalmente graças ao resveratrol, uma substância presente nos taninos responsável por inúmeras coisas boas no nosso organismo (muitos a chama de “whey protein” do coração haha!).

 

Decantar melhora o vinho

Muita gente pensa que o decanter é apenas mais um acessório que quase todo “enochato” gosta de usar para chamar a atenção, mas a verdade é que essa espécie de jarra de pescoço alongado ajuda (e muito) a capturar as melhores características do vinho. Basicamente, o decanter expõe o vinho à oxigenação, responsável por acelerar a maturação (ou envelhecimento) da bebida, e esse processo deixa os aromas mais fortes, os taninos mais suaves e o álcool menos acentuado

 

Vinho mancha

São vários os mitos da mancha – leite mancha, café mancha, molho shoyu mancha… Pois é, infelizmente, vinho realmente mancha. Pense na uva, ela mancha as mãos, os dentes e tem o poder de deixar um líquido roxo, bem roxo. A “tinta” de um tinto é realmente forte, utilizada até para pinturas na antiguidade. É por isso que ela penetra com força nas linhas de uma roupa ou tapete. Mas fique calmo, tem formas de amenizar esse acidente

 

Dá para abrir vinho sem saca-rolhas

Noite de confraternização, festas, aquele jantar especial ou um reunião com os amigos. Merece um bom vinho, certo? Agora e se não tiver sacarrolhas… Há coisa pior?! Esqueceu-se de levar, na casa do amigo não tem, o restaurante ou bar não trabalha com vinho? E agora? Enfim… Desistir do vinho? Jamais! Se você já andou a ver aqueles vídeos de pessoas a abrir uma garrafa de vinho com um sapato e acha que é mentira, pasme, pois é possível abrir assim, sim! Mas tem mil outras maneiras mais fáceis.

 

Para fazer vinho, as uvas são amassadas com os pés

Uma das práticas mais tradicionais do processo de vinificação é a pisa das uvas. Apesar de ser um costume arcaico, considerado muitas vezes antiquado, a prática ainda existe em algumas vinícolas pequenas, principalmente de Vinho do Porto. Uma vez esmagada, a polpa da uva se separa da casca e caroço, dando origem ao mosto que será fermentado. Os mais tradicionais acreditam que amassar as uvas com os pés proporciona melhor qualidade à bebida. Em vinícolas seculares, a pisa só é feita para os melhores rótulos da casa!

 

Na Europa, tem vinho a cada esquina

Os países da Europa são todos pequenos, e em quase todos eles, faz-se vinho. A Europa, em si, é um continente pequeno. Agora, pense: a Europa inteira tem pouco mais de 10 milhões de quilómetros quadrados de extensão e, em dados de 2000, quase cinco milhões de áreas com vinhedos… Quase 50% da Europa é de vinhas, e não pessoas!